JUVENTUDES E DESENVOLVIMENTO DA CIDADANIA
Hoje ser cidadão é poder conviver democraticamente em uma sociedade que garanta melhores condições de realização pessoal e coletiva com base nas conquistas alcançadas pela humanidade...
JUVENTUDES E CULTURA: O HIP HOP DE NORTE A SUL
O Hip Hop é uma tendência em permanente expansão entre as juventudes de norte a sul do Brasil. Acompanhe aqui o movimento hip-hop em todas as regiões brasileiras.
JUVENTUDES CONTINUAM PARTICIPANDO DA POLÍTICA, MAS DE OUTRAS FORMAS, APONTA PESQUISA
Segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto Pólis de Estudos e Assessoria em Políticas Públicas, um em cada três jovens brasileiros participa de algum tipo de organização social.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
ADOLESCENTE E JOVEM, ADOLESCÊNCIA E JUVENTUDE: quem é quem no pedaço?
23:52:00
Heldene Khaleo
Embora muitas vezes tidas como sinônimos, juventude e adolescência têm significados distintos, ainda que superpostos. Além disso, é conveniente classificar a juventude como um termo singular? Simplesmente juventude!
A Organização Mundial de Saúde (OMS) entende a adolescência como um processo biológico, que vai dos 10 aos 19 anos de idade, abrangendo a pré-adolescência (10 a 14 anos) e a adolescência propriamente dita (15 a 19 anos). Já a juventude, para a OMS, é considerada uma categoria sociológica que implica na preparação dos indivíduos para o exercício da vida adulta, abrangendo a faixa dos 15 aos 24 anos de idade. As diferenças entre adolescência e juventude, portanto, não se limitam à idade, mas aos conceitos, demonstrando processos de naturezas distintas.
Mais comum ainda do que falar da adolescência e da juventude como a mesma coisa é se referir indistintamente aos que vivem esses períodos como adolescentes ou jovens, como se observa em notícias, reportagens, em conversas informais e até mesmo em textos teóricos.
Embora a juventude possa ser considerada uma categoria social que agrupa os que compartilham a mesma fase de vida, é preciso ficar atento à multiplicidade de experiências que se reúnem sob essa denominação. Será que podemos falar numa mesma experiência juvenil vivida por um jovem morador do sertão nordestino, e por um jovem que reside num grande centro urbano? Certamente não. Por isso que, inclusive, a conveniência de se usar o termo “juventudes” (no plural) em vez de “juventude” (no singular), pois que não há singularidade nesse termo, mas sim, uma extrema pluralidade.
A classe social, a condição étnica e de gênero, a presença ou não no mercado de trabalho e na escola, a moradia – urbano ou rural – a situação familiar e a orientação religiosa são fatores que vão diferenciando internamente esse grupo que chamamos de juventude(s). Afinal, dois jovens (negros, branco ou amarelo) por exemplo, que possuam diferentes condições econômicas terão provavelmente experiências juvenis muito diferentes. Por isso, ao falar das experiências de vida juvenis propriamente ditas, é preciso reconhecer uma multiplicidade – o que nos leva a falar – no plural - de juventudes.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Juventudes e Cultura: o Hip Hop de norte a sul
23:30:00
Heldene Khaleo
O Hip Hop é uma tendência em permanente expansão entre as juventudes de norte a sul do Brasil. Com ajuda do poder público, o movimento tem ganhado força cada vez mais rápido e, com o espaço na mídia, aí não teve jeito. No entanto, parece que, se não tivesse a ajuda de nenhum dos dois, não teria problema, o pessoal se articula e a coisas acontece assim mesmo. Acompanhe aqui o movimento hip-hop em todas as regiões brasileiras ao mesmo tempo que vale a pena ressaltar que esse movimento na real se encontra ainda mais amplo, pois é cultura de muitas comunidades de base.
Região Nordeste
O Nordeste está bem organizado politicamente. É em Teresina, por exemplo, que fica a sede do MHHOB (Movimento Hip-Hop Organizado). A sede, chamada Centro de Referência da Cultura Hip-Hop, é o maior espaço dedicado à cultura no país. Lá acontecem oficinas de MC, a produção de um fanzine e até um pré-vestibular para negros.
Em Recife, o pessoal também está a cada dia mais organizado. O movimento começou a crescer em 2000 e hoje existe a Associação Metropolitana de Hip-Hop, que une todos os grupos locais. Galo de Souza, referência do hip-hop pernambucano pela sua atuação política, diz que a associação pensa ações para estruturar o hip-hop na região.
Em Natal se destaca pela articulação o Posse de Hip Hop Lelo Melodia, que hoje integra algumas redes de juventudes como a Rede de Jovens do Nordeste, a Rede Sou de Atitude e o Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro. Segundo Jenair Alves, integrante da Rede Sou de Atitude, são jovens que concordam com princípios semelhantes e acreditam que, em grupo, é muito melhor para agir no contexto e pensar novas formas de fazer a transformação sócio-cultural. O Posse criou uma produtora, a Melodia Produções, e tem apoiado grupos na gravação de músicas Hip Hop. Produziu um livro que conta a história da juventude da Periferia do Brasil e ainda desenvolve Multirão de Grafite, Música e Debates sobre os direitos da Mulheres.
Em Salvador, o movimento vem crescendo e hoje se ouve o freestyle – rima de improviso – na saída das escolas, nos intervalos de aulas e até em pontos de ônibus. A batida costuma misturar elementos da cultura negra, é o hip-hop afro, como faz o grupo Quilombo Vivo, de Amaralina, em Salvador, que mistura capoeira e candomblé em suas músicas. Outros grupos representativos são: Fúria Consciente, Quilombahia, DGS, Simples Rap’ortagem, Juri Racional, Lica, Os Agentes, Anjos da Rima e Jr-junior.
Em São Luís, a miscelânea é com elementos do folclore, em uma combinação de rap com tambor-de-crioula e com tambor-de-minas. O Clã Nordestino, grupo de São Luís, fez uma batida na música Toada do Clã que começa com cantoria de bumba-meu-boi, passa para a batida do rap e volta para o bumba-meu-boi: uma mistura verdadeiramente original. Eles também misturam rap com maracatu. Lamartine, do Clã, explica que a influência é inevitável.“A gente se criou ouvindo tambor no terreiro das nossas casas, ouvindo cantiga, ouvindo ladainha, até porque a gente veio do interior do estado, então essa convivência com o tambor-de-crioula e o bumba-meu-boi é natural”.
Em São Luís, a miscelânea é com elementos do folclore, em uma combinação de rap com tambor-de-crioula e com tambor-de-minas. O Clã Nordestino, grupo de São Luís, fez uma batida na música Toada do Clã que começa com cantoria de bumba-meu-boi, passa para a batida do rap e volta para o bumba-meu-boi: uma mistura verdadeiramente original. Eles também misturam rap com maracatu. Lamartine, do Clã, explica que a influência é inevitável.“A gente se criou ouvindo tambor no terreiro das nossas casas, ouvindo cantiga, ouvindo ladainha, até porque a gente veio do interior do estado, então essa convivência com o tambor-de-crioula e o bumba-meu-boi é natural”.
Região Norte
O Norte do Brasil também está articulado e unido. Há um tempo formou-se a rede Movimento Hip-Hop na Floresta (MHF), filiada ao MHHOB. O MHF funde a ideologia hip-hop com conceitos ecológicos para fortalecer a cultura amazônica. Tem MHF no Pará, Amapá, Acre, Rondônia e Amazonas. Em julho, vai acontecer um encontro chamado Ritual do Hip-Hop da Floresta, em Rio Branco – vai durar uma semana e definir as diretrizes do movimento, estabelecer uma agenda e agilizar os projetos. Preto Michel, representante do MHF no Pará, diz que os grupos costumam cantar os problemas de cada região. Em Belém, o grupo MBC fez uma música sobre o massacre de Eldorado dos Carajás; um grupo de Macapá fala da pororoca, o encontro do rio com o mar; e em Rio Branco e Roraima a temática das queimadas é bastante presente.
O movimento valoriza a cultura amazônica, as tribos indígenas, os quilombolas e as populações ribeirinhas. Por isso, em Manaus misturam rap com bumba-meu-boi. Em Macapá, misturam com o marabaixo, som percussivo das comunidades quilombolas. Nesta cidade, o que chama atenção é o número de grupos: apenas nove. Além disso, tem três grafiteiros, que lutam por reconhecimento e apoio.
Região Centro-Oeste
“O rap aqui é do pé rachado.” Foi assim que o MC Letal, da banda goiana Testemunha Ocular, definiu o rap de lá, ou seja, um rap de raiz, da terra. Eles misturam o gênero com a congada, catira, folia de reis, moda de viola. O movimento é um pouco dividido, não tem sede, e as bandas são poucas; mas não fica fora de cena.
Já o pessoal de Brasília parece priorizar mais as letras do que a batida. “Os rappers se preocupam demais em retratar o cotidiano violento e se esqueceram da musicalidade, o que prejudicou a receptividade em outras regiões do país”, diz a jornalista e dançarina de break Bianca Chiaviatti. Mas a receptividade em Brasília é grande, já que a cidade comporta grandes festivais, como o Abril pro Rap, que existe há quatro anos – porém, só em 2005 é que o graffiti e o break ganharam espaço. Os grupos de rap em evidência são: Vadios Loucos, Atitude Feminina, Veronika e Código Penal.
Região Sudeste
No Rio de Janeiro e em São Paulo perde-se a conta de quantos grupos e organizações existem. Descobrimos até articulações no Vale do Paraíba, em São Paulo, onde o hip-hop está presente em todas as periferias, embora de maneira ainda em organização e articulação. Em Jacareí, já existe a Associação Cultural e Educacional Nego Prettu. Lá funciona um Centro de Juventude onde acontecem diversas oficinas.
Recentemente, em São José dos Campos, a Câmara Municipal aprovou um projeto de lei que cria a Semana Hip-Hop, A acontecer sempre em junho. A parte musical tem muita influência da capital de São Paulo, tanto na batida como em letras.
Como em São Paulo, a cultura hip-hop invadiu Belo Horizonte através do break. A dança chegou à cidade com filmes como Break Dance, ao qual os jovens assistiam muitas vezes para aprender os passos; depois se reuniam em espaços públicos para mostrar o que já sabiam. Uma curiosidade: como os b.boys se instruíam pela tela, acabavam invertendo as posições – dançavam espelhado. Essa característica, mais a mistura com a capoeira, resultou em um estilo próprio da região. O rap, hoje em dia, é o elemento com mais visibilidade em Belo Horizonte, mas o graffiti é o elemento que mais cresce, com amplo apoio do governo local.
Região Sul
O Hip Hop em Porto Alegre teve muito apoio do PT, que ajudou o movimento durante seus anos de governo. Também tem muita gente fazendo rap em Porto Alegre e o que prevalece nas letras é a situação da periferia em geral. Poucas letras falam da raça negra especificamente, já que em Porto Alegre a maioria da população é branca.
Em Curitiba, o movimento também cresceu depois que conquistou um espaço maior na mídia. O movimento está se profissionalizando, mas tende para a polarização: enquanto alguns assumem o discurso político- social, que eles chamam de “rap raiz”, com trabalhos que levam o hip-hop para as escolas e para as comunidades, outros fazem o rap underground, mais dançante e com temas mais alegres.
Em Florianópolis, o hip-hop também já conquistou muito espaço. Existem algumas organizações como a CH2F (Conexão Hip-Hop Floripa), Nação Hip-Hop e Hip-Hop Rua. O Nação Hip-Hop, com o Cinema na Favela, promoveu muitas mostras de filmes nacionais e, depois da exibição, debates com alguns atores dos elencos. MV Bill costuma aparecer por lá, pois essa organização é filiada à CUFA – Central Única das Favelas. As outras organizações também desenvolvem trabalhos sociais, com oficinas sobre a cultura hip-hop.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Juventudes continuam participando da política, mas de outras formas, aponta pesquisa
09:10:00
Heldene Khaleo
Segundo pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto Pólis de Estudos e Assessoria em Políticas Públicas, um em cada três jovens brasileiros participa de algum tipo de organização social. São grupos religiosos, de hip-hop, de grafiti, entre outros, que não são vistos tradicionalmente como organizações políticas mas que, atualmente, essas têm sido as formas de participação social de jovens brasileiros.
Apesar de se comentar que as juventudes brasileiras têm estado indiferentes, a pesquisa aponta um grande nível de participação juvenil, conforme dados da pesquisa. Só que as juventudes têm buscado novas formas de participação na vida política, já que há um descontentamento grande com as formas tradicionais de participação, como partidos, sindicatos e entidades estudantis.
“A própria realidade do país não estimula as juventudes a participarem da política tradicional”, diz a pesquisadora Ozira da Costa, em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional. Segundo ela, essa realidade se reflete nos números. De 8.000 jovens entrevistados, em oito regiões metropolitanas, 28% fazem parte de algum grupo, mas apenas 1% desses jovens participam de algum partido político e apenas 0,7% está filiado a algum sindicato.
A principal forma de participação é em grupos religiosos, seguida das associações esportivas e comunitárias e de grupos artísticos. Para Ozanira da Costa, esse resultado aponta, inclusive, a importância dos três temas – religião, esporte e cultura – para a juventude.
Em cada cinco jovens, um respondeu “sim” à pergunta “Você já participou de algum movimento ou reunião para melhorar a vida do seu bairro ou da sua cidade (lugar)?”. E desse público que já havia participado de alguma mobilização, 40% tinha como objetivo melhorar ou criar uma área de lazer ou esporte. Os outros motivos foram segurança, melhorias de saneamento e de postos de saúde no seu lugar.
Duas das chaves para essa participação, segundo a pesquisadora, são a renda e o grau de educação dos jovens. A pesquisa revelou que quanto maior a renda do jovem, maior seu grau de participação em organizações sociais. O mesmo vale para o grau de instrução.
“A grande ligação para que o jovem possa participar mais da vida política e da sociedade é a educação”, afirma a pesquisadora. “O jovem pobre, portanto, tem uma grande dificuldade de acesso à educação de qualidade e com isso menos estímulo à participação. Já o jovem com renda familiar melhor tem condição de ir a uma escola de um serviço educacional melhor e lá tem mais acesso à informação e mais estímulo para participar da vida política do país”, confirma Bosco, sociólogo da UFRN.
A falta de acesso à informação é outro obstáculo à participação, segundo a pesquisadora Ozira Costa. “A pesquisa ainda mostra que 85% dos jovens se informam pela televisão. (...) Os jovens não têm acesso a outras formas eficazes de informação e as escolas não estimulam temas da atualidade”.
A pesquisa dos institutos Pólis e Ibase foi feita em dois períodos: julho de 2004, pouco antes das eleições municipais, e novembro de 2005, período da crise política que atingiu o Congresso Nacional. Foram entrevistadas 8 mil jovens de 15 a 24 anos das regiões metropolitanas. Depois da pesquisa quantitativa, foram escolhidos 900 jovens para uma pesquisa qualitativa. Foi usado um método canadense chamado de Grupos de Diálogo com Grupos Focais, onde são formados grupos de discussão sobre alguns temas para descobrir a opinião dos entrevistados sobre cada assunto.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Juventude do Campo: Inovações projetadas, oportunidade de transformação
19:21:00
Heldene Khaleo
Fixar o jovem do campo no campo é um discurso bastante antigo e repetitivo e, para que a propensão das juventudes do campo à inovação se realize, entretanto, é necessário um ambiente social que estimule o conhecimento e favoreça que as novas ideias tenham chance de se tornar empreendimentos. Uma das maiores doenças de nosso tempo, como diz Abramovay, está exatamente na incapacidade das sociedades contemporâneas oferecerem perspectivas para que a inovação se concretize em projetos – privados ou sociais – construtivos.
Para isso, o mais importante é que o destino dos jovens não esteja traçado desde seu nascimento, como fatalidade. Ora, o pressuposto da tão propalada "fixação do jovem do campo no campo" é que não há melhor caminho para estes jovens que sua transformação em agricultores. Há dois equívocos nessa suposição.
1º) Estudos mostram que parte importante dos jovens vivendo hoje em estabelecimentos agropecuários – e a grande maioria das moças, em especial – não deseja seguir a profissão dos pais. Segundo pesquisa realizada pela AACC em 2008, mesmo em uma das regiões em que a agricultura familiar tem maior expressão social e econômica no país, um terço dos rapazes e quase dois terços das moças declaravam não querer continuar vivendo em estabelecimentos agropecuários.
2º) Uma política de desenvolvimento rural voltada para a juventude não pode limitar-se à agricultura. Os futuros agricultores serão cada vez mais pluriativos, suas rendas dependerão da agricultura, mas também de outras atividades. Quanto mais os jovens estiverem preparados para essas outras atividades – entre as quais se destacam as voltadas à valorização da própria biodiversidade existente no meio rural – maiores suas chances de realização pessoal e profissional. Além disso, nas regiões rurais não vivem apenas agricultores. Não se pode ignorar esta realidade elementar e hoje sobejamente conhecida: o meio rural é muito maior do que a agricultura.
Uma verdadeira política de desenvolvimento rural deve associar uma educação de qualidade e estímulo para projetos inovadores que façam do meio rural, para eles, não uma fatalidade, mas uma opção de vida.
A política deve contemplar igualmente os jovens rurais que não querem ser agricultores, mas gostariam de permanecer em suas regiões de origem, valorizando seus círculos de amizade, contribuindo para o surgimento de novas atividades e evitando, na prática, a falsa oposição entre a monotonia e a pobreza da vida interiorana e os conhecidos problemas das periferias das grandes cidades.
Juventude do campo: uma reflexão sobre a realidade e os desafios
13:47:00
Heldene Khaleo
Poucos estudos têm sido produzidos para entender as transformações sociais que regem os processos sucessórios da realidade do jovem no campos, como suas atividades profissionais, por exemplo. Contudo, já não há mecanismos seguros que garantam a permanência da juventude rural junto às propriedades dos pais, o que parece demonstrar que estes não vislumbram expectativas e atrativos que venha a transformar o meio rural em um local adequado para o projeto de suas vidas.
Deve-se promover uma reflexão incômoda e necessária buscando responder se as atividades do campo agrícolas conferem o status de profissão aos jovens do campo e de como essas atividades são vistas pelo conjunto da sociedade no que diz respeito a sua função social.
A meio rural está envelhecendo e masculinizando (Camarano e Abramovay, 1998). Os agricultores, por exemplo, têm mais de 55 anos, tem baixa escolaridade, tem dificuldade de produzir renda regular, sendo este um dos tantos fatores que geram dificuldades para fazer com que os filhos permaneçam nas suas propriedades e no processo de continuidade das suas atividades.
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| População Rural/Total - Brasil - Projeção da FAO - Fonte: CEPAL/IBGE/FAO |
Os filhos (a juventude em questão) por sua vez têm escolaridade mais elevada, cresceram com uma cultura diferente da dos pais e incorporaram parte do modo de vida urbana; além de não terem sido preparados para a gestão frente aos desafios da produção e mercados da atualidade e vêem poucos atrativos para continuar a profissão dos pais.
Esse fenômeno cabe na concepção das “rupturas” da agricultura descritas por Hervieu (1990), no tocante a ruptura demográfica, característica da metade do século XX, quando há uma rápida redução da população que se ocupa das atividades agrícolas, ao mesmo tempo em que aumenta a idade dos chefes das propriedades rurais.
Os “elaboradores” e gestores das políticas públicas e suas organizações representativas ainda não tem dado a devida atenção a esta questão, cujo um dos grandes desafios posto, é a continuidade à agricultura familiar enquanto categoria social e econômica, expresso como uma das tantas transformações que vem ocorrendo no meio rural que encontra dificuldades em se transformar em agenda positiva.
Fatores que atraem os jovens para a área urbana, na opinião dos responsáveis das atuais propriedades | Fatores que mantêm os jovens na área rural na opinião dos responsáveis das atuais propriedades | |
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Fonte dos dados: Pesquisa Dinâmica populacional e a sucessão na agricultura familiar do Vale do Taquari – UNIVATES / FETAG / MDA (novembro de 2009)
A inserção da pauta sobre a juventude do campo deve ter sua prioridade nos espaços de discussão e de definição de políticas públicas, dado que este não é apenas um problema relacionado à sucessão nas atividades da agricultura familiar, - ou da pesca, ou da produção artesanal - tem a ver também com a reposição de lideranças e dirigentes nas comunidades do campo.
Para tanto, deve-se aproximar e fortalecer relações institucionais com universidades, centros de pesquisa, a fim de produzir conhecimentos sobre o tema, ao mesmo tempo deve-se ampliar a inserção e discussão de temas conexos com a educação no meio rural, inserindo conteúdos adequados à realidade da agricultura familiar.
Assim também, precisa ser levado em conta à criação de oportunidades para a realização de outros anseios, como atividades de formação e acesso às universidades, e de preferência que os jovens possam ser ouvidos sobre as oportunidades que almejam, pois que, por ser do campo, não necessariamente, o jovem tem que seguir uma atividade profissional independente daquilo que é foco dos seus sonhos.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Juventude Urbana: marginalizados em transformação
14:39:00
Heldene Khaleo
O jovem dos anos 90 não está preso aos dogmas cultuados nos anos 60. Ao mesmo tempo pode ser a favor da pena de morte e ser ecologista. Ser politizado e ir ao caipiródromo. Nos anos 60 tinha que ser sexualmente liberal, marxista e não gostar de rock. Hoje é normal encontrar, entre rapazes e moças, virgens, literalmente, além de escolherem mitos como os mortos John Lennon, Jim Morrison, Jesus Cristo. Incoerência ? Mudanças radicais?
A juventude de ontem desafiava a cultura da competição, "não confiava em ninguém com mais de 30 anos" e vestia-se com um desmazelo espantoso e proposital. O jovem de hoje reformulou seus conceitos, preocupando-se com a qualidade de vida embora, não desprezando a valorização do aspecto físico, característica de sua idade, num país que, já apontava, no final da década de 80 para uma população 40 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos.
Por outro lado, em 89, um levantamento feito pela empresa de pesquisa americana Saldiva, detectou um jovem desacreditado com o "status quo", com a política econômica e com os valores vigentes. Já nessa época ficou patenteado que todos são consumistas, independentemente de classe social.
Apesar de saber do valor do dinheiro e as dificuldades para o ganho, o jovem se utiliza da fantasia do consumo como fuga do prórpio real. Muitos mais do que a droga, o jovem do início da década de 90 já usava a fantasia como elemento da fuga. E o consumo é a nova droga. A juventude de hoje, segundo a pesquisa da Saldiva, não trazem nem ligação com os ideais políticos pacifístas da década de 60 nem o culto egoísta ao dinheiro que caracterizou os jovens urbanos de 80 e 90.
Enfim, é uma juventude às voltas com suas crises pessoais e profissionais dentro de uma crise econômica do país. Com a crise econômica acentuada tornou-se mais difícil para os jovens dos anos 10 construirem uma perspectiva de vida num cenário de desigualdades sociais, um esgotamento de forma de expressão e de estilo incentivando, nesse período, um êxodo do país para outros onde exista qualidade de vida, economia estável e mercado de trabalho.
Jovem Urbano
No primeiro semestre de 1995 a Revista VEJA realizou uma pesquisa com jovens urbanos de vários países. Essa pesquisa aponta um jovem brasileiro menos otimista que os dos outros países no que diz respeito a melhoria da qualidade de vida no mundo. Apenas 17% acha que sua geração vai viver numa sociedade mais justa.
Quanto à política, tanto os marginalizados quanto os urbanos pensam da mesma maneira: os políticos não são confiáveis. A prova cabal desse dado foi o movimento pró-impeachment, em 1992, uma atuação coletiva de toda a juventude brasileira, tornando-se a grande alavanca que destituiu o primeiro presidente eleito pelo povo, após o período militar.
Essa mesma pesquisa mostra, também, que apesar da aparente liberdade de escolha dos jovens da classe média existe, na verdade, um processo intenso de massificação de valores conservadores. Essa globalização operada, sobretudo, pela televisão, coincide com a dinâmica do jovem de menos idade, que tem entre suas principais características o desejo de controlar o mundo.
A profissão, a realização pessoal e o respeito marcam mais pontos em suas ambições do que o sucesso e a fama; pessoalmente esperam casar e ter filhos. Lutam por valores mais autênticos da humanidade. Ecologia, comportamento saudável e seu futuro profissional estão entre suas preocupações, apesar do liberalismo sexual e a existência da drogadição, jovem atual busca relacionamento onde estejam presentes valores como responsabilidade, respeito e confiança.
O Conceito de Juventude e quadro demográfico da população jovem
14:04:00
Heldene Khaleo
Em 1990 o número de adolescentes no Brasil era de 34.311.111. Esta cifra representava 23% da população, sendo 49,7% do sexo masculino e 50,3% do feminino. Nos últimos vinte anos, a mortalidade para eles tem aumentado, sendo a violência e o suicídio os maiores responsáveis pelo crescente número de óbitos.
A proporção de crianças e adolescentes com até 14 anos de idade vem caindo a cada ano no país. Em 2006, o percentual em relação ao total da população era de 26%, que corresponde a 48,6 milhões de pessoas nessa faixa etária, bem abaixo da taxa de 1996, que era de 31,2%. De acordo com projeções apontadas na Síntese de Indicadores Sociais, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até o ano de 2015 essa proporção deve atingir 25,7%
Mas que população é esta? O que é o adolescente?
A UNESCO indica que adolescência é o período que começa aos 15 anos de idade e vai até os 24 anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente do Brasil define como adolescente a pessoa que se encontra na faixa etária de 12 a 18 anos incompletos. Alguns autores como Colli Setian acham que esse período "adolescência" não pode ser tratado com "começo e fim" tão rígidos. A variação é de país para país e, pode-se dizer mesmo no caso do Brasil, de região para região. Causas psico-sociais concorrem para essa flexibilidade.
A juventude ou adolescência deve ser entendida como um segmento da sociedade. Por se tratar de um segmento intermediário entre a criança e o adulto o adolescente tem caracterísiticas próprias. Características frágeis, que por isto fazem do jovem o "espelho" deste sistema, porque o adolescente retrata o conjunto de mazelas dessa sociedade. Individualmente, o adolescente passa por transformações biopsicosociais que são vividas por alguns como crise da idade, que Luiz Carlos Osório compara à crise sócio-política do mundo atual (Batista Neto, Francisco: 1990).
A adolescência pode ser definida cronológica, sociológica e psicologicamente. Cronologicamente é o periodo que varia dos doze aos vinte e cinco anos. Notar aqui a diferença dos limites de idade do enunciado pela UNESCO. Sociologicamente é um periodo de transição do estado de dependência para o de autonomia. É quando se começa a assumir as responsabilidades do mundo adulto. Psicologicamente, a adolescência é um período crítico de definição do ego, com grandes mudanças na personalidade.
Para o psicologo M. Rosa, a adolescência é um conjunto psicossocial que: "representa uma fase crítica no processo evolutivo em que o individuo é chamado a fazer importantes ajustamentos de ordem pessoal e social. Entre esses ajustamentos temos a luta pela independência financeira e emocional, a escolha de uma vocação e a própria identidade sexual.
Como conceito psicossocial, a adolescência não está necessariamente limitada aos fatores cronológicos. O que, de fato, marca o fim da adolescência, são os ajustamentos normais do individuo aos padrões de expectativa da sociedade, com relação às populações adultas"(ROSA, M.:1985).
Concluindo: a adolescência é um período de transição entre o ser criança e o adulto. A adolescência é um fenômeno biopsicossocial do processo de crescimento e desenvolvimento do ser humano, nitidamente marcada pela família e pela escola. (Milani, Feizi Masrour:1991).
O desenvolvimento de uma pessoa é uma sucessão de experiências psiquicas que, num processo de separação e individualização termina na aquisição da consciência da identidade.(MAHLER, M.:1986) A adolescência é uma fase do desenvolvimento do ser humano que corresponde à segunda década da existência. Ela contém a síntese das conquistas e dos atropelos da infância e a transformação sexual, ideológica e, até social, impostas pela mudança corporal. (Maakaroun, Marilia de Freitas: 1991).
É uma fase do ser humano de profundas transformações físicas, psicológicas e sociais. Momento em que a pessoa estabelece novas relações com a família, amigos e consigo mesmo. Fase das perguntas e das dúvidas que devem encontrar espaço para serem respondidas sem preconceitos e com liberdade para não se transformarem, mais tarde, em angústia e ansiedades. (Takiuti, Albertina Duarte: 1991). Uma fase de aprendizagens e de ensinamentos que precisam ser ouvidos e valorizados.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Juventude e direitos: evolução histórica
23:15:00
Heldene Khaleo
Durante todo o período colonial, Primeiro e Segundo Impérios, não tivemos instituição pública que atendesse a chamada "infância desvalida". Nos quatro primeiros séculos da história, do País, não se enfrentou a "questão do menor". Um presidente da Velha República disse: "o problema social é um caso de polícia". Sessenta anos depois, a violência urbana chegou a tal ponto que fomos forçados a admitir" que a maioria dos casos de polícia são, em última análise, problemas sociais" (Gabeira, Fernando:1985).
Entretanto, a associação problema social/caso de polícia fez nascer um atendimento ao menor com o cunho de repressão.O menor era visto como uma ameaça social. Essa mentalidade resultou na criação do Serviço de Assistência ao Menor, um estabelecimento chamado de "sucursal do inferno" e "escola do crime". O regime militar, em 1964, é que vai intervir nessa realidade com a intenção de revertê-la.
Em dezembro de 1964 é publicada a Lei 4.513, contendo as diretrizes e bases para a "Política Nacional do Bem-Estar do Menor". É criada a Fundação do Bem Estar do Menor. O enfoque correcional-repressivo, é substituído pelo enfoque assistencialista. O menor torna-se então carente. Entretanto, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem), ao ser criada, não mudou a mentalidade da maioria daqueles que ali foram trabalhar. Isto fez com que, na prática, o modelo correcional-repressivo fosse o adotado.
De 1982 para cá surgiu uma nova maneira de ver o problema das crianças e jovens em situação de risco. Surge entre os educadores e trabalhadores sociais da área um movimento de educação progressiva. Uma pergunta, então, se colocou: o que fazer para superar a sistemática degradação pessoal e social dos jovens?
A resposta não é simples. Não é fácil reverter uma realidade em pouco tempo. É preciso implodir a "Política do Bem-Estar do Menor" e reconstrui-la. Isto exige muito das pessoas que se proponham a tal empreendimento. (Costa, 1989, Brasil-Criança Urgente). Mudar este quadro é um desafio. Para isso é preciso uma união de forças entre o governo, as instituições, as organizações não-governamentais e a sociedade.
Em novembro de 1959 o Brasil votou pela aprovação, na ONU, da Declaração Universal do Direitos da Criança, cujo principal objetivo é assegurar uma infância feliz com condições de gozar os direitos e liberdades nela enumerados.
Em outubro de 1986 foi realizado em Brasília o "Encontro Nacional Criança e Constituinte", quando a visão do problema da juventude passou de local a nacional, as medidas, defendidas no plenário, foram aprovadas. O resultado deste Encontro foi assegurado no artigo 227 da Constituição Brasileira de 1988 e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovado em 1990.
Na época, com apoio das bancadas do governo e da oposição, foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, pelo Congresso Nacional, tornando-se a Lei 8.069,de 13 de junho de 1990.(Lisbôa, Antônio Márcio J.: 1991).
O Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante o direito constitucional de mais da metade da população brasileira, representa uma verdadeira revolução social.
Em 8 de julho de 2010, o Senado Federal aprova em primeiro e segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição conhecida como PEC da Juventude, que insere o termo "jovem" no capítulo dos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal. O texto garante, assim, acesso a direitos que já são constitucionalmente assegurados às crianças, adolescentes e idosos.
Entretanto, a associação problema social/caso de polícia fez nascer um atendimento ao menor com o cunho de repressão.O menor era visto como uma ameaça social. Essa mentalidade resultou na criação do Serviço de Assistência ao Menor, um estabelecimento chamado de "sucursal do inferno" e "escola do crime". O regime militar, em 1964, é que vai intervir nessa realidade com a intenção de revertê-la.
Em dezembro de 1964 é publicada a Lei 4.513, contendo as diretrizes e bases para a "Política Nacional do Bem-Estar do Menor". É criada a Fundação do Bem Estar do Menor. O enfoque correcional-repressivo, é substituído pelo enfoque assistencialista. O menor torna-se então carente. Entretanto, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem), ao ser criada, não mudou a mentalidade da maioria daqueles que ali foram trabalhar. Isto fez com que, na prática, o modelo correcional-repressivo fosse o adotado.
De 1982 para cá surgiu uma nova maneira de ver o problema das crianças e jovens em situação de risco. Surge entre os educadores e trabalhadores sociais da área um movimento de educação progressiva. Uma pergunta, então, se colocou: o que fazer para superar a sistemática degradação pessoal e social dos jovens?
A resposta não é simples. Não é fácil reverter uma realidade em pouco tempo. É preciso implodir a "Política do Bem-Estar do Menor" e reconstrui-la. Isto exige muito das pessoas que se proponham a tal empreendimento. (Costa, 1989, Brasil-Criança Urgente). Mudar este quadro é um desafio. Para isso é preciso uma união de forças entre o governo, as instituições, as organizações não-governamentais e a sociedade.
Em novembro de 1959 o Brasil votou pela aprovação, na ONU, da Declaração Universal do Direitos da Criança, cujo principal objetivo é assegurar uma infância feliz com condições de gozar os direitos e liberdades nela enumerados.
Em outubro de 1986 foi realizado em Brasília o "Encontro Nacional Criança e Constituinte", quando a visão do problema da juventude passou de local a nacional, as medidas, defendidas no plenário, foram aprovadas. O resultado deste Encontro foi assegurado no artigo 227 da Constituição Brasileira de 1988 e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, aprovado em 1990.
Na época, com apoio das bancadas do governo e da oposição, foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA, pelo Congresso Nacional, tornando-se a Lei 8.069,de 13 de junho de 1990.(Lisbôa, Antônio Márcio J.: 1991).
O Estatuto da Criança e do Adolescente, que garante o direito constitucional de mais da metade da população brasileira, representa uma verdadeira revolução social.
Em 8 de julho de 2010, o Senado Federal aprova em primeiro e segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição conhecida como PEC da Juventude, que insere o termo "jovem" no capítulo dos Direitos e Garantias Fundamentais da Constituição Federal. O texto garante, assim, acesso a direitos que já são constitucionalmente assegurados às crianças, adolescentes e idosos.



















